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Testemunhos

Francisco Salgueiro
No Verão brotou. Num desses encontros fortuítos (citando Vinicius, a minha namorada disse-me: 'a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida') dei de caras com o 'blog' do Tiago Azevedo Fernandes (A Baixa do Porto) que me levou á página da Porto Vivo. Visitei pela primeira vez o edifício numa daquelas manhãs farinhentas, brancas de nevoeiro. Gostei do pé direito alto. Não gostei de escadas até ao 3o andar. Gostei do chão corrido. Não gostei do facto de não ter garagem. Ficou-me no olho o 2o andar. Em noite de São João namorei o edifício. Admito. Fomos lá ver aquilo por fora, de noite (dentro do possível na Rua das Flores na noite de São João..muito fomos insultados por não nos mexermos) e colher reacções das pessoas que iam comigo. 'Mete lá o nome e logo se vê.' Foi o que fiz.
Revisitei-o numa tarde solarenga, daquelas tardes em que o rio, lá abaixo, na Ribeira, mais parece uma piscina. No 3o andar, surpreendi-me. O que era floculento e frio na minha primeira visita tinha-se transformado numa vista impressionante sobre a Ribeira e a Sé. Era bastante mais pequeno. Tinha três lances de escadas. Não tinha o pé direito elevado.Alguém racional não compraria aquele. A vista. A luz. Amor à segunda vista.
Sabia que tinha um caso bicudo entre mãos. Duas amantes, mas só poderia casar com uma. Ou talvez me abandonariam no altar, trocando-me por outro pretendente. Deixaria nas mãos de Fortuna. Concorri a todos. Unicamente com o meu nome.
Fui sozinho para o sorteio. Aquele nervoso miudinho dos momentos em que sabemos que os ventos nos empurram para um dos lados, imprevisível, qual veleiro á deriva.
Fui o último a ser sorteado. Ela era o 3o número 150. Casámos-nos. Espero ajudar a Baixa, a tal cinzenta de granito abraçada ao Douro, a viver melhores dias. Dias em que eu me sinta seguro a passear por lá à noite. Sem ruas desertas de vida. Sem almas penadas que durmam nas arcadas dos velhos edifícios. Em que a Baixa viva.

Carla Pinho




